quinta-feira, 1 de outubro de 2009


"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai fazer assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."

"Caio Fernando Abreu"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

do Comum ao Incomum






Frans Krajcberg (kozienica, 12 de abril de 1921) transforma a natureza comum em algo incomum. De certa forma, faz da natureza algo abstrato. É pintor, escultor, gravador e fotógrafo, nascido na Polônia e naturalizado brasileiro.

Frans destaca-se nas esculturas, suas obras são incomuns e no mínimo questionadoras. Dono de um estilo único, o artista transforma a natureza em obras de arte.

Sua trajetória de vida deriva por vários países, até chegar ao Brasil, onde vive de uma forma bem peculiar, em cima de uma árvore. Em 1939, com o inicio da Segunda Guerra Mundial, Krajcberg buscou refúgio na União Soviética, onde estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado. Em 1941 engajou-se no Exército Polonês, e lutou até o fim da guerra em 1945. Residiu na Alemanha prosseguindo seus estudos na Academia de Belas Artes de Stuttgart.
Chegou ao Brasil em 1948, vindo a participar da primeira Bienal de São Paulo, em 1951. Durante a década de 1950 o seu trabalho era abstrato.
De 1958 a 1964 viveu entre as cidades de Paris, Ibiza e Rio de Janeiro, onde produziu os seus primeiros trabalhos fruto do contato direto com a natureza. Na década de 1960 morou em uma caverna no Pico da Cata Branca, região de Itabirito, no interior de Minas Gerais. Ali na região, à época, era conhecido como o barbudo das pedras, uma vez que vivia solitário, sem conforto, tomando banho no rio vizinho, enquanto produzia, incessantemente, gravuras e esculturas em pedra.

Em 1964, executou as suas primeiras esculturas com troncos de árvores mortas. Realizou diversas viagens à Amazônia e ao Pantanal Matogrossense, fotografando e documentando os desmatamentos, além de recolher materiais para as suas obras, como raízes e troncos calcinados. Na década de 1970 ganhou projeção internacional com as suas esculturas de madeira calcinada.
A sua obra reflete a paisagem brasileira, em particular a floresta amazônica, e a sua constante preocupação com a preservação do meio-ambiente. Atualmente, o artista tem se dedicado à fotografia.

Krajcberg escolheu o Brasil para viver após a 2ª Guerra, depois de perder seus pais em campos de concentração. Chegou ao Rio de Janeiro em 1948. A passagem foi paga pelo mestre da pintura Marc Chagall, porque o escultor mesmo não tinha dinheiro. Hoje, tem o “necessário”, vende poucas obras, apenas para museus ou colecionadores de sua simpatia.

Pouco tempo de completar 80 anos de vida, Krajcberg recebe grandiosas homenagens: a publicação de uma caixa com os livros Natura e Revolta (Editora GB Arte, R$ 150) – que reúne cem imagens de suas obras e uma biografia ilustrada com 50 fotos – e o projeto do Museu Krajcberg, a ser construído em Nova Viçosa, sul da Bahia.

O escultor adianta que o governo francês também estuda a possibilidade de criar um museu para ele. “Eles aproveitariam o velho estúdio que tenho em Paris para erguer o museu. Doei o estúdio para a prefeitura da cidade”, diz o artista, que há um ano instalou uma escultura nos jardins dos Champs Elysées, na capital francesa.

Krajcberg faz esculturas com árvores queimadas em incêndios florestais, fotografa as áreas devastadas e denuncia a destruição em fóruns internacionais. Por não estar no Brasil por um acaso, mas por escolha, fala do País e de seus artistas sem comedimento. “Nunca vi um lugar onde os artistas fossem mais desunidos do que aqui. No Brasil não há movimento artístico.” E no exterior? “Nos EUA me perguntam primeiro quanto vale a minha obra. Só depois querem saber do que se trata.”

Krajcberg diz-se revoltado e não gosta das cidades. Por isso mora na árvore. “O mundo está cada vez mais urbano. Se não nos conscientizarmos logo, teremos problemas. Ninguém fala do que aconteceu em dezembro último, quando a terra girou fora do eixo. Há alterações climáticas evidentes, pois a natureza é vingativa”, diz o escultor, mais conhecido na França do que aqui.


Ícones...


Iggy Pop, Johnny Deep e kate Moss...

Ícones da Música, do Cinema, da Moda.

Caminhava sem direção, ora à procura de uma praia, areia branca, mar azul claro, dois coqueiros e uma rede. Ora à procura de uma festa de rock, uma dose de vodka dois cubos de gelo e um baseado.

Caminhava sem direção, ora sob as letras de Chico, ora sob as letras de Morrisey, sem ser aqui, sem ser acolá. No fim das contas, esqueço Chico, esqueço a praia, e sigo para o mesmo lugar, o boteco da esquina, onde tocava rock e havia o garçom meu amigo.

Sozinha, como sempre, vestindo meu casaco xadrez, calças justas e regata branca. Habitualmente, encostava-me ao balcão, e pedia ao garçom, já meu intimo, uma cerveja bem gelada, o que não foi diferente. Pensei sim em mudar de bar, de lugar, de casaco, mas parecia-me que naquele momento, o jeito era esperar, esperar a hora, mesmo sem saber que hora. O certo é que não sabia quando a hora, e que hora chegaria, porém esperava, esperava no tédio da envoltura dos politicamente corretos, que não se definiam entre superficiais, infelizes, ou banais. Julgarias de tudo um pouco, talvez tudo, ou muito mais. Estava infeliz, certo, aquela roda pacata, as conversas, as tantas pessoas que nada me traziam, no fim sentia-me nada mais que sozinha. O cheio sozinho, se é que me entende. No fundo não era nem a cerveja, a roupa e o bar, apenas as pessoas. Tão ordinárias quanto simpáticas, a simpatia sim, a simpatia era deprimente, a falta de sentido próprio de felicidade. Na segunda garrafa, chorava minhas magoas, julgando-os, o que no insciente seria minhas próprias frustrações, de estar no começo, e começar assim tão deprimente mal. Longe do que, eu diria estar em mim, ser de mim.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Morceaux de Conversations avec Jean Luc Godard


Ainda Nouvelle Vague e Godard, o festival de inverno de POA, que teve inicio nesta semana, exibe documentário inédito sobre o memorável diretor.
O filme reúne trechos raros de entrevistas e depoimentos de Jean-Luc Godard, principal artífice da Nouvelle Vague, que será exibido no ano em que se comemora o 50º aniversário de surgimento deste movimento que revolucionou a linguagem cinematográfica.
Na quarta-feira, dia 29, às 19h, a sessão de Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard será comentada pelo crítico e cineasta Fabiano de Souza, que acaba de chegar de uma temporada de seis meses em Paris, onde realizou um curso com Michel Marie, um dos grandes especialistas na obra de Godard.


Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard (Morceaux de Conversations avec Jean-Luc Godard), Alain Fleischer. França, 2007. Duração: 125 minutos.


Local: Sala de Cinema P.F Gastal, Usina do Gasômetro.

Nouvelle Vague: uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.


O cinema novo francês – nova onda – completa 50 anos. Para comemorar a data a Sala Redenção – Cinema Universitário, em parceria com a Aliança Francesa de Porto Alegre, oferece, com uma curadoria conjunta, durante o mês de julho um ciclo com filmes de diretores que participaram ativamente do movimento nouvelle vague, que deu uma nova face para o cinema mundial. Aliás, este é apenas um dos motivos para dedicar o mês de julho ao cinema francês, pois o impacto da queda da Bastilha, comemorada no último dia 14, ainda é forte no inconsciente coletivo – já que os lemas liberté, égalité, fraternité tornaram-se quase universais, influenciando decisivamente o mundo ocidental.
E hoje (28), às 16 horas, a mostra apresenta A Chinesa, obra-prima do movimento, de JeanLuc Godard. Godard foi um dos maiores nomes da Nouvelle Vague.


La Chinoise
França - 1967
Duração: 96min
Direção: JeanLuc Godard
Entrada Franca

Paris, Verão de 1967. Alguns tentavam aplicar os princípios que romperam com a burguesia da URSS e dos partidos comunistas ocidentais em nome de Mao Tse Tung. Imersos no pensamento de Mao e em literatura comunista, um grupo de estudantes franceses começa a questionar a sua posição no mundo e as possibilidades de o mudar, mesmo que isso signifique considerar o terrorismo como uma via possível. Em A Chinesa, por exemplo, muitos tentam ver no filme um pastiche ou a glorificação dos personagens marxistas-leninistas que se enfurnam durante as férias num apartamento burguês para aprender a fazer a revolução maoísta na França. Caso notório de tentar ressignificar conteúdos ao invés de tentar ver o que lá está: os personagens de A Chinesa, jovens em processo de encontrar seu lugar no mundo, tateiam no escuro à procura de verdades, mas o que Godard filma é justamente a verdade dessa procura. Intrigante obra-prima.Sala da

Local: Sala da Redenção, Cinema Universitário - UFRGS, Osvaldo Aranha.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


um processo revolucionário não é um processo gradual, mas um movimento repetitivo, um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes..


Kierkegaard