E como abertura deste humilde blog, um papinho bem filosófico , entrevista publicada na Revista Filosofia, sobre julgamento ético nos meios de comunicação, profundo, não? Filosofia e jornalismo abrindo o - estás a pensar.
O entrevistado Clóvis de Barros Filho é jornalista pela Cásper Líbero, formado em Direito pela USP, tendo doutorado em Direito e Comunicação. Ele é autor dos livros: Ética na Comunicação, Comunicação do eu: Ética e solidão e habitus na comunicação, entre outros. Clóvis discute a mídia sob um olhar filosófico.
“Não há nada que se possa falar sobre ética nos meios de comunicação que não tenha seu fundamento último na Filosofia. Neste sentindo, o estudo da Filosofia é fundante da reflexão critica dos meios de comunicação”.
p.s: a entrevista não está na integra, aqui estão trechos e perguntas que achei mais interessante. Como o meu interesse, não é necessariamente o seu, compre a revista e reflita sobre esse processo que envolve as informações que chegam até você. Revista Filosofia, edição 33.
Filosofia - Sua formação é voltada para o Jornalismo e o Direito, duas profissões notadamente práticas. Como veio seu interesse pela reflexão filosófica
Clóvis- (...) O conhecimento jurídico e conhecimento jornalístico me eram apresentados muitas vezes como indiscutíveis. Sobre o jornalismo, por exemplo, diziam que era divido em três tipos: informativo, opinativo e interpretativo. E o que diferenciava o primeiro do segundo é que no informativo não havia um juízo de valor. Em outras palavras, a notícia seria um espelho, uma coincidência entre o fato e a notícia. Isso me intrigava já na graduação, porque eu me perguntava: mas será que a própria definição da pauta já não implica na valorização? Definir os fatos que merecem ser notícia e fatos que não merecem ser notícias não é uma forma de valoração?” A notícia é vendida como sendo espelho do mundo: “aconteceu, virou manchete”, “o que pinta de novo, pinta na tela da Globo”, “mostrando a vida como ela é.” São slogans publicitários, é verdade, mas vendem o serviço jornalístico como sendo uma codificação fiel do mundo. Sempre me perguntei se o jornalismo não seria uma reconstrução e, como toda reconstrução, obedeceria a certos interesses. Se o jornalista mostra o mundo como ele é, ele só pode ser de um jeito, de tal maneira que ele jamais será responsável pelo que faz. Estaria a mercê de uma regra que o constrange, que é a regra da correspondência radical entre o mundo e a notícia. Então, não podendo fazer diferente, ele é como vento. O vento venta, ele não pode deliberar ventar no sentido contrário. O jornalista só passaria a ter responsabilidade se ele pudesse fazer outro jornal. Ele não faz. O jornalista só poderia ter responsabilidade se o jornal fosse um mundo possível em detrimento de outros mundos possíveis, descartados por ele, jornalista. Ele só poderia ser responsável se ele decidisse alguma coisa. Resumindo, as minhas perguntas, de certa maneira, transcendiam o que se pretendia do curso de graduação. Eu olhava para o curso de fora, me preocupava muito menos com a formação técnica e muito mais com os fundamentos.
Filosofia – Você tocou no tema de audiência. Fala-se em sensacionalismo da mídia com relação a crise econômica mundial – a avalanche de notícias catastróficas estaria espalhando e agravando a crise. Ética e necessidade de audiência se esbarram em algum ponto? Por necessidade de audiência se abandonaria a ética?
Clóvis- Eu vejo que o respeito às demandas sociais por notícia é um dado do fazer jornalístico, um dado que se impõe. A menos que cogitemos a estatização da mídia, a mídia no setor privado será fabricante de um produto à venda. E, por isso, precisa de compradores. E os compradores são o que são. Não há de se esperar da mídia que forma novos consumidores dela próprio. O que há de se esperar da mídia é que, vendendo bem, procure manter os consumidores onde estão. Portanto, se nós pretendemos uma nova mídia, precisamos pensar nas condições materiais de uma nova demanda. E as condições materiais de uma nova demanda passam pela formação de um receptor mais critico dos meios de comunicação. Esta formação, no meu entender, não pode ser dada pelos próprios meios de comunicação, porque ela seria cínica. Da mesma maneira em que somos formados em Matemática, em Literatura, em História, deveríamos receber formação, durante o ensino fundamental, sobre mídia. A mídia deveria ser trazida para a sala de aula como objeto critico de estudo – de sua produção e de sua recepção.
Filosofia- O pensamento de filósofos de outras épocas a respeito da Ética pode ser aplicado à nossa realidade, ao nosso contexto? São princípios atemporais?
Clóvis- os conceitos nunca são atemporais, porque eles estão no tempo. E foram propostos por pessoas que estiveram no tempo. São frutos da mais estreita iminência do mundo da vida. Porém, esses conceitos, que são temporais, são férteis e úteis para discussão do mundo contemporâneo. Quando, no intelectualismo socrático, Sócrates nos propõem que toda vida bem vivida deve decorrer de uma reflexão racional sobre ela, em que tenhamos a liberdade por definir a nós mesmos, essa reflexão é ainda extremamente útil. Se considerarmos que muitos jornalistas se apresentam como escravos dos fatos, fica evidente que, se você é escravo dos fatos, você não tem as condições socráticas de reflexão sobre o bom jornalismo. Quem é escravo não tem liberdade para pensar, não pode definir a própria vida, isto é, definir a própria atividade profissional (...). Em outras palavras, já que eu não posso julgar a conduta por ela mesma, em grande medida porque o gabarito platônico do mundo das idéias não está ao acesso de todos, estão eu admito que a boa conduta seja aquela que enseja efeitos bons. Essa perspectiva conseqüencialista da moral tem enorme interesse para quem estuda os meios de comunicação porque, no final das contas, eu acabo tende de investigar qual o efeito dos códigos nos achismos dos especialistas midiáticos. E os efeitos cientificamente demonstráveis da mídia com a sociedade, tipo agenda setting, espiral do silêncio. Muito interessante perceber que os efeitos efetivamente produzidos pelos meios de comunicação fazem parte, ou podem fazer parte, de uma reflexão moral de conscientização. E isso é um aporte que nos traz a filosófica conseqüencialista – que tem seu início com o egoísmo moral de Maquiavel, mas que tem o utilitarismo moras dos ingleses dos séculos XVIII e XIX, que tem o pragmatismo como representante importante(...).
Filosofia – O senhor tocou no assunto da agenda setting ( a mídia que decide o que e de quem falar) e da espiral do silêncio (tese que a manifestação contrária se manifesta publicamente, mas tende a silenciar-se de forma gradativa), que eram conceitos mais ligados ao mundo dominado pelos meios de comunicação de massa. Com a difusão da internet, que dá acesso a fontes de informação mais diversificada, muda alguma coisa nestes conceitos? Eles deixam de vigorar por que o cenário mudou?
Clóvis- Tudo muda e a internet é uma forma de manifestação dos agentes sociais que modifica a relação da mídia tradicional com a sociedade. Apesar dessas novas formas de manifestação, aquilo que a agenda setting se dispõem a comprova, isto é, os temais mais presentes na mídia são as temas mais discutidos pela sociedade, permanece inatacável. Digamos que os meios de comunicação se aproveitam daquilo que é ventilado em um blog – por exemplo, alguma ocorrência ilícita no mundo político – e apresentem este fato como noticia. Esta noticia será discutida pela sociedade, inclusive nas formas de manifestações on-line . Perceba, não é como era antes, mas a idéia de que os meios de comunicação de massa ainda controlam uma prerrogativa importante, que é a definição de um mínimo denominador comum de temas discutíveis de qualquer um, permanece uma idéia muito interessante, muito fértil. Não sou um fervoroso defensor da idéia, mas considero-a, com todas as demonstrações científicas de que ela foi objeto. Por quê? Porque de fato poderíamos dizer, como diz Niklas Luhmann, a mídia é um fator de redução de complexidade social. Em outras palavras, se não houvesse mídia tradicional, provavelmente não teríamos um cardápio de temas discutíveis por qualquer um, estaríamos muito mais sujeitos a nichos temáticos, ou do mundo mais estritamente privado ou profissional.
Fonte: Revista Filosofia – ciência&vida, número 33.