
terça-feira, 28 de julho de 2009
Morceaux de Conversations avec Jean Luc Godard

Ainda Nouvelle Vague e Godard, o festival de inverno de POA, que teve inicio nesta semana, exibe documentário inédito sobre o memorável diretor.
O filme reúne trechos raros de entrevistas e depoimentos de Jean-Luc Godard, principal artífice da Nouvelle Vague, que será exibido no ano em que se comemora o 50º aniversário de surgimento deste movimento que revolucionou a linguagem cinematográfica.
Na quarta-feira, dia 29, às 19h, a sessão de Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard será comentada pelo crítico e cineasta Fabiano de Souza, que acaba de chegar de uma temporada de seis meses em Paris, onde realizou um curso com Michel Marie, um dos grandes especialistas na obra de Godard.
Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard (Morceaux de Conversations avec Jean-Luc Godard), Alain Fleischer. França, 2007. Duração: 125 minutos.
Local: Sala de Cinema P.F Gastal, Usina do Gasômetro.
Nouvelle Vague: uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.

O cinema novo francês – nova onda – completa 50 anos. Para comemorar a data a Sala Redenção – Cinema Universitário, em parceria com a Aliança Francesa de Porto Alegre, oferece, com uma curadoria conjunta, durante o mês de julho um ciclo com filmes de diretores que participaram ativamente do movimento nouvelle vague, que deu uma nova face para o cinema mundial. Aliás, este é apenas um dos motivos para dedicar o mês de julho ao cinema francês, pois o impacto da queda da Bastilha, comemorada no último dia 14, ainda é forte no inconsciente coletivo – já que os lemas liberté, égalité, fraternité tornaram-se quase universais, influenciando decisivamente o mundo ocidental.
E hoje (28), às 16 horas, a mostra apresenta A Chinesa, obra-prima do movimento, de JeanLuc Godard. Godard foi um dos maiores nomes da Nouvelle Vague.
La Chinoise
França - 1967
Duração: 96min
Direção: JeanLuc Godard
Entrada Franca
Paris, Verão de 1967. Alguns tentavam aplicar os princípios que romperam com a burguesia da URSS e dos partidos comunistas ocidentais em nome de Mao Tse Tung. Imersos no pensamento de Mao e em literatura comunista, um grupo de estudantes franceses começa a questionar a sua posição no mundo e as possibilidades de o mudar, mesmo que isso signifique considerar o terrorismo como uma via possível. Em A Chinesa, por exemplo, muitos tentam ver no filme um pastiche ou a glorificação dos personagens marxistas-leninistas que se enfurnam durante as férias num apartamento burguês para aprender a fazer a revolução maoísta na França. Caso notório de tentar ressignificar conteúdos ao invés de tentar ver o que lá está: os personagens de A Chinesa, jovens em processo de encontrar seu lugar no mundo, tateiam no escuro à procura de verdades, mas o que Godard filma é justamente a verdade dessa procura. Intrigante obra-prima.Sala da
Local: Sala da Redenção, Cinema Universitário - UFRGS, Osvaldo Aranha.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
domingo, 19 de julho de 2009
sexta-feira, 17 de julho de 2009
trechos de Alice...
Um pingo, uma gota de suor, era tudo que Alice não queria daquele lugar, nada parecia suficiente, tudo a incomodava. Talvez fosse a calça jeans, rasgada velha e desbotada. Talvez fosse o som estarrecedor dos altos falantes que gritavam pedaços de Chico Buarque remixado com a modernidade eletrônica. Ela estava completamente entediada, como uma boba, palhaça, esquisita, escorada no canto de um bar qualquer a espera de alguém.
Bar, boteco sei lá, apenas implorava para o garçom um copo de vodka com dois cubos de gelo e uma rodela de limão. Quem sabe assim ressuscitaria as células que pareciam, há meses, estarem mortas.
Mais uma noite, mais uma aparente tentativa frustrada de quem sabe encontrar alguém para conversar, alguém que valesse a noite deixada para trás. A noite de todas as noites, passadas com Lautrec, Smith, Schopenhauer ou qualquer teoria da vez.
Estava sozinha, como sempre, mas ao contrário de outras destrutivas saídas noturnas esperava alguém. Alguém do qual ainda escutava as últimas palavras, com uma exatidão que a tornava impotente para iludir-se com qualquer outro contexto que não fosse de fim trágico. Dois anos se passaram, e ainda lembrava com veemência letra por letra do atroz pé na bunda. Como se fosse ontem, cada palavra perfurava seu cérebro, como uma furadeira.
Agora essa ou esse, um reencontro, definitivamente dispensável. Nada intendível, não agora, achava que Moisés não retornasse tão logo, e que encontraria tempo para recuperar-se, estava indo muito bem, tinha até recuperado seu ímpeto romancista para dar continuidade ao projeto acadêmico de analise de poetas brasileiros.
Com Alice, se tratando de sentimentos é tudo mais complicado. Seu jeito rebelde, bicho do mato não lhe proporcionou grandes encontros, menos ainda grandes romances.
Quando conheceu Moisés surpreendeu-se, por dois desregulados motivos: tinha certeza de que era lésbica e de que jamais amaria um homem a ponto de ensaiar planos. Homem, esse ser tão complexo e imaturo jamais faria a cabeça de Alice.
O barulho exagerado do copo contra o vidro no canto daquele boteco, que não se defina entre o rock e o eletrônico interrompeu suas insistentes e devastadoras lembranças. A sede pelo primeiro gole levou a bebida até á boca com um gesto rápido e rude. Rude como ela.
Alice sabia do peso, da intensidade, e do seu dom para criar castelos de areia e aventuras na selva. Sabia que naquela noite, o erro seria dar espaço as suas incansáveis expectativas de volta. Moisés, como sempre atrasado afligia ainda mais Alice, que aguardava com inquietude e dores estomacais.
Com mãos úmidas, tremulas e o pescoço torcendo-se freneticamente em direção a porta, sentia ânsia. Os incansáveis movimentos em direção a portar começavam a lhe causar certa tontura, e para piorar, além do comum atraso, suas lentes de contato passaram a deslocar-se da posição correta, irritando-a profundamente.
Em rápidos e rudes goles terminou o copo de vodka. Sem menos, apressou-se em pedir a próxima dose no impulso de quem sabe embriagar toda insegurança momentânea. Sentia-se confusa, o que desejaria Moisés? Onde estaria? Por que a volta ao Brasil? Por que a procura por ela? Tantos porquês repetiam-se como se a cólera do passado retornasse anda mais destrutiva.
Foi um término tão tenso e doloroso, as feridas continuavam abertas, e ele sabia do quão difícil foi o passar dos anos, e quão insensível foi sua atitude e mudança brusca de buscas existenciais. Em uma noite lhe propôs casamento, e na outra embarcou para Roma. Só Alice sabe o quanto foi traumático terminar a leitura de As Virgens Suicidas.
No momento, estava repudiando o fato de Moisés cutucar o ferimento justo agora que surgiam as primeiras cascas.
A batida do copo sobre a mesa de vidro interrompeu, mais uma vez, suas saídas mentais. Voltou-se à espera de Moisés em um bar que nada lhe atraia, diziam ser underground, pouco lhe importava. Os sofás vermelhos colocados de forma estratégica nos quatros cantos do porão quadrado formavam uma espécie de abrigo para o os grupos menos amigáveis, observação que lhe causava certo aperto psicológico.
Os sofás vermelhos eram os lugares preferidos de Moisés, foi ali que o conheceu, nas remotas vezes que foi ao bar. Naquela noite chuvosa e quente, sequer ventava. No passado tão presente, três amigos ocupavam o canto mais simpático formado pelos sofás vermelhos. Mais simpático porque acima deles uma televisão exibia imagens inéditas de David Bowie. Alice mal piscava, apenas quando notou a semelhança do triplo, ambos usavam xadrez e gesticulavam sem parar, como se todos discutissem ao mesmo tempo sobre assuntos distintos. As aparentes divergências entre os três a atraíram. E com um discreto brilho nos olhos passou a observar a aparência um tanto excêntrica de um deles.
Com um súbito devaneio, que no dia lhe assuntou profundamente, imaginou a ponta esquisita (como ela) do triangulo sem aquela roupa toda. A camisa xadrez entre aberta, duas vezes o tamanho de seu corpo, uma regata branca por baixo, a calça de veludo boca de sino, e o tênis all star rasgado e sem cor deu-lhe a certeza que tinhas descoberto pela primeira e estranha vez o descontrole da atração pelo gênero oposto.
Outrora, quando os olhares se encontraram tocava Friday in Love, do The Cure, nunca esqueceria. Totalmente fora do contexto, havia se apaixonado, a primeira vista. Talvez tivesse sido o nariz fino e arrebitado de Moisés, talvez a roupa ou os cabelos despenteados. Não soube explicar, até hoje não sabe.
As lembranças a fizeram sorrir, há tempos não sorria, nunca mais havia voltado ao bar, e tudo ainda lhe parecia familiar, até demais. Baixou o copo e pediu a próxima dose, olhou para o relógio, duas horas atrasado, ah Moisés, seus olhos piscaram, a vodka chegou, com uma rapidez que lhe fez desconfiar dos dotes paranormais do garçom, como se soubesse da necessidade da última dose. Retirou da bolsa velha e empoeirada seu antigo e quase inutilizado celular, e digitou as últimas palavras: “Profundo é o poço do passado, desprendo-me definitivamente da corda”. Com uma calma digna de Alice bebeu a última dose com dois cubos de gelo e uma rodela de limão com um prazer nunca sentido antes. Largou o copo, pediu um cigarro ao garçom e observou pela ultima vez os sofás vermelhos. Quando Friday in Love iniciou o próximo som, Alice já não estava presente naquele contexto que julgava tão distante de si.
Bar, boteco sei lá, apenas implorava para o garçom um copo de vodka com dois cubos de gelo e uma rodela de limão. Quem sabe assim ressuscitaria as células que pareciam, há meses, estarem mortas.
Mais uma noite, mais uma aparente tentativa frustrada de quem sabe encontrar alguém para conversar, alguém que valesse a noite deixada para trás. A noite de todas as noites, passadas com Lautrec, Smith, Schopenhauer ou qualquer teoria da vez.
Estava sozinha, como sempre, mas ao contrário de outras destrutivas saídas noturnas esperava alguém. Alguém do qual ainda escutava as últimas palavras, com uma exatidão que a tornava impotente para iludir-se com qualquer outro contexto que não fosse de fim trágico. Dois anos se passaram, e ainda lembrava com veemência letra por letra do atroz pé na bunda. Como se fosse ontem, cada palavra perfurava seu cérebro, como uma furadeira.
Agora essa ou esse, um reencontro, definitivamente dispensável. Nada intendível, não agora, achava que Moisés não retornasse tão logo, e que encontraria tempo para recuperar-se, estava indo muito bem, tinha até recuperado seu ímpeto romancista para dar continuidade ao projeto acadêmico de analise de poetas brasileiros.
Com Alice, se tratando de sentimentos é tudo mais complicado. Seu jeito rebelde, bicho do mato não lhe proporcionou grandes encontros, menos ainda grandes romances.
Quando conheceu Moisés surpreendeu-se, por dois desregulados motivos: tinha certeza de que era lésbica e de que jamais amaria um homem a ponto de ensaiar planos. Homem, esse ser tão complexo e imaturo jamais faria a cabeça de Alice.
O barulho exagerado do copo contra o vidro no canto daquele boteco, que não se defina entre o rock e o eletrônico interrompeu suas insistentes e devastadoras lembranças. A sede pelo primeiro gole levou a bebida até á boca com um gesto rápido e rude. Rude como ela.
Alice sabia do peso, da intensidade, e do seu dom para criar castelos de areia e aventuras na selva. Sabia que naquela noite, o erro seria dar espaço as suas incansáveis expectativas de volta. Moisés, como sempre atrasado afligia ainda mais Alice, que aguardava com inquietude e dores estomacais.
Com mãos úmidas, tremulas e o pescoço torcendo-se freneticamente em direção a porta, sentia ânsia. Os incansáveis movimentos em direção a portar começavam a lhe causar certa tontura, e para piorar, além do comum atraso, suas lentes de contato passaram a deslocar-se da posição correta, irritando-a profundamente.
Em rápidos e rudes goles terminou o copo de vodka. Sem menos, apressou-se em pedir a próxima dose no impulso de quem sabe embriagar toda insegurança momentânea. Sentia-se confusa, o que desejaria Moisés? Onde estaria? Por que a volta ao Brasil? Por que a procura por ela? Tantos porquês repetiam-se como se a cólera do passado retornasse anda mais destrutiva.
Foi um término tão tenso e doloroso, as feridas continuavam abertas, e ele sabia do quão difícil foi o passar dos anos, e quão insensível foi sua atitude e mudança brusca de buscas existenciais. Em uma noite lhe propôs casamento, e na outra embarcou para Roma. Só Alice sabe o quanto foi traumático terminar a leitura de As Virgens Suicidas.
No momento, estava repudiando o fato de Moisés cutucar o ferimento justo agora que surgiam as primeiras cascas.
A batida do copo sobre a mesa de vidro interrompeu, mais uma vez, suas saídas mentais. Voltou-se à espera de Moisés em um bar que nada lhe atraia, diziam ser underground, pouco lhe importava. Os sofás vermelhos colocados de forma estratégica nos quatros cantos do porão quadrado formavam uma espécie de abrigo para o os grupos menos amigáveis, observação que lhe causava certo aperto psicológico.
Os sofás vermelhos eram os lugares preferidos de Moisés, foi ali que o conheceu, nas remotas vezes que foi ao bar. Naquela noite chuvosa e quente, sequer ventava. No passado tão presente, três amigos ocupavam o canto mais simpático formado pelos sofás vermelhos. Mais simpático porque acima deles uma televisão exibia imagens inéditas de David Bowie. Alice mal piscava, apenas quando notou a semelhança do triplo, ambos usavam xadrez e gesticulavam sem parar, como se todos discutissem ao mesmo tempo sobre assuntos distintos. As aparentes divergências entre os três a atraíram. E com um discreto brilho nos olhos passou a observar a aparência um tanto excêntrica de um deles.
Com um súbito devaneio, que no dia lhe assuntou profundamente, imaginou a ponta esquisita (como ela) do triangulo sem aquela roupa toda. A camisa xadrez entre aberta, duas vezes o tamanho de seu corpo, uma regata branca por baixo, a calça de veludo boca de sino, e o tênis all star rasgado e sem cor deu-lhe a certeza que tinhas descoberto pela primeira e estranha vez o descontrole da atração pelo gênero oposto.
Outrora, quando os olhares se encontraram tocava Friday in Love, do The Cure, nunca esqueceria. Totalmente fora do contexto, havia se apaixonado, a primeira vista. Talvez tivesse sido o nariz fino e arrebitado de Moisés, talvez a roupa ou os cabelos despenteados. Não soube explicar, até hoje não sabe.
As lembranças a fizeram sorrir, há tempos não sorria, nunca mais havia voltado ao bar, e tudo ainda lhe parecia familiar, até demais. Baixou o copo e pediu a próxima dose, olhou para o relógio, duas horas atrasado, ah Moisés, seus olhos piscaram, a vodka chegou, com uma rapidez que lhe fez desconfiar dos dotes paranormais do garçom, como se soubesse da necessidade da última dose. Retirou da bolsa velha e empoeirada seu antigo e quase inutilizado celular, e digitou as últimas palavras: “Profundo é o poço do passado, desprendo-me definitivamente da corda”. Com uma calma digna de Alice bebeu a última dose com dois cubos de gelo e uma rodela de limão com um prazer nunca sentido antes. Largou o copo, pediu um cigarro ao garçom e observou pela ultima vez os sofás vermelhos. Quando Friday in Love iniciou o próximo som, Alice já não estava presente naquele contexto que julgava tão distante de si.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
sábias palavras...
“Já se disse que as grandes idéias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade sempre ameaçada de que cada e todo homem, sobre a base dos seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos...”
Albert Camus

"Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas, e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando não desenvolveu ainda os recursos com que prender os outros ao papel, quando nada tem da técnica que leva tempo para aprender. Quando em suma você tem apenas emoções para vender. O amador, vendo que o profissional, depois de aprender tudo que podia em matéria de escrever, consegue pegar um assunto trivial , como as reações mais superficiais de três moças comuns, por exemplo, e dar-lhe encanto e graça o amador só consegue realizar sua habilidade de transferir emoções a outra pessoa através do expediente desesperado e radical de arrancar do coração a trágica história de seu primeiro amor, e expô-la nas páginas para que os outros vejam. Este, de qualquer forma, é o preço da admissão."
Scott Fitzgerald
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Mark Ryden, grande artista norte-americano


Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair"
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