quinta-feira, 1 de outubro de 2009


"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai fazer assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo."

"Caio Fernando Abreu"

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

do Comum ao Incomum






Frans Krajcberg (kozienica, 12 de abril de 1921) transforma a natureza comum em algo incomum. De certa forma, faz da natureza algo abstrato. É pintor, escultor, gravador e fotógrafo, nascido na Polônia e naturalizado brasileiro.

Frans destaca-se nas esculturas, suas obras são incomuns e no mínimo questionadoras. Dono de um estilo único, o artista transforma a natureza em obras de arte.

Sua trajetória de vida deriva por vários países, até chegar ao Brasil, onde vive de uma forma bem peculiar, em cima de uma árvore. Em 1939, com o inicio da Segunda Guerra Mundial, Krajcberg buscou refúgio na União Soviética, onde estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado. Em 1941 engajou-se no Exército Polonês, e lutou até o fim da guerra em 1945. Residiu na Alemanha prosseguindo seus estudos na Academia de Belas Artes de Stuttgart.
Chegou ao Brasil em 1948, vindo a participar da primeira Bienal de São Paulo, em 1951. Durante a década de 1950 o seu trabalho era abstrato.
De 1958 a 1964 viveu entre as cidades de Paris, Ibiza e Rio de Janeiro, onde produziu os seus primeiros trabalhos fruto do contato direto com a natureza. Na década de 1960 morou em uma caverna no Pico da Cata Branca, região de Itabirito, no interior de Minas Gerais. Ali na região, à época, era conhecido como o barbudo das pedras, uma vez que vivia solitário, sem conforto, tomando banho no rio vizinho, enquanto produzia, incessantemente, gravuras e esculturas em pedra.

Em 1964, executou as suas primeiras esculturas com troncos de árvores mortas. Realizou diversas viagens à Amazônia e ao Pantanal Matogrossense, fotografando e documentando os desmatamentos, além de recolher materiais para as suas obras, como raízes e troncos calcinados. Na década de 1970 ganhou projeção internacional com as suas esculturas de madeira calcinada.
A sua obra reflete a paisagem brasileira, em particular a floresta amazônica, e a sua constante preocupação com a preservação do meio-ambiente. Atualmente, o artista tem se dedicado à fotografia.

Krajcberg escolheu o Brasil para viver após a 2ª Guerra, depois de perder seus pais em campos de concentração. Chegou ao Rio de Janeiro em 1948. A passagem foi paga pelo mestre da pintura Marc Chagall, porque o escultor mesmo não tinha dinheiro. Hoje, tem o “necessário”, vende poucas obras, apenas para museus ou colecionadores de sua simpatia.

Pouco tempo de completar 80 anos de vida, Krajcberg recebe grandiosas homenagens: a publicação de uma caixa com os livros Natura e Revolta (Editora GB Arte, R$ 150) – que reúne cem imagens de suas obras e uma biografia ilustrada com 50 fotos – e o projeto do Museu Krajcberg, a ser construído em Nova Viçosa, sul da Bahia.

O escultor adianta que o governo francês também estuda a possibilidade de criar um museu para ele. “Eles aproveitariam o velho estúdio que tenho em Paris para erguer o museu. Doei o estúdio para a prefeitura da cidade”, diz o artista, que há um ano instalou uma escultura nos jardins dos Champs Elysées, na capital francesa.

Krajcberg faz esculturas com árvores queimadas em incêndios florestais, fotografa as áreas devastadas e denuncia a destruição em fóruns internacionais. Por não estar no Brasil por um acaso, mas por escolha, fala do País e de seus artistas sem comedimento. “Nunca vi um lugar onde os artistas fossem mais desunidos do que aqui. No Brasil não há movimento artístico.” E no exterior? “Nos EUA me perguntam primeiro quanto vale a minha obra. Só depois querem saber do que se trata.”

Krajcberg diz-se revoltado e não gosta das cidades. Por isso mora na árvore. “O mundo está cada vez mais urbano. Se não nos conscientizarmos logo, teremos problemas. Ninguém fala do que aconteceu em dezembro último, quando a terra girou fora do eixo. Há alterações climáticas evidentes, pois a natureza é vingativa”, diz o escultor, mais conhecido na França do que aqui.


Ícones...


Iggy Pop, Johnny Deep e kate Moss...

Ícones da Música, do Cinema, da Moda.

Caminhava sem direção, ora à procura de uma praia, areia branca, mar azul claro, dois coqueiros e uma rede. Ora à procura de uma festa de rock, uma dose de vodka dois cubos de gelo e um baseado.

Caminhava sem direção, ora sob as letras de Chico, ora sob as letras de Morrisey, sem ser aqui, sem ser acolá. No fim das contas, esqueço Chico, esqueço a praia, e sigo para o mesmo lugar, o boteco da esquina, onde tocava rock e havia o garçom meu amigo.

Sozinha, como sempre, vestindo meu casaco xadrez, calças justas e regata branca. Habitualmente, encostava-me ao balcão, e pedia ao garçom, já meu intimo, uma cerveja bem gelada, o que não foi diferente. Pensei sim em mudar de bar, de lugar, de casaco, mas parecia-me que naquele momento, o jeito era esperar, esperar a hora, mesmo sem saber que hora. O certo é que não sabia quando a hora, e que hora chegaria, porém esperava, esperava no tédio da envoltura dos politicamente corretos, que não se definiam entre superficiais, infelizes, ou banais. Julgarias de tudo um pouco, talvez tudo, ou muito mais. Estava infeliz, certo, aquela roda pacata, as conversas, as tantas pessoas que nada me traziam, no fim sentia-me nada mais que sozinha. O cheio sozinho, se é que me entende. No fundo não era nem a cerveja, a roupa e o bar, apenas as pessoas. Tão ordinárias quanto simpáticas, a simpatia sim, a simpatia era deprimente, a falta de sentido próprio de felicidade. Na segunda garrafa, chorava minhas magoas, julgando-os, o que no insciente seria minhas próprias frustrações, de estar no começo, e começar assim tão deprimente mal. Longe do que, eu diria estar em mim, ser de mim.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Morceaux de Conversations avec Jean Luc Godard


Ainda Nouvelle Vague e Godard, o festival de inverno de POA, que teve inicio nesta semana, exibe documentário inédito sobre o memorável diretor.
O filme reúne trechos raros de entrevistas e depoimentos de Jean-Luc Godard, principal artífice da Nouvelle Vague, que será exibido no ano em que se comemora o 50º aniversário de surgimento deste movimento que revolucionou a linguagem cinematográfica.
Na quarta-feira, dia 29, às 19h, a sessão de Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard será comentada pelo crítico e cineasta Fabiano de Souza, que acaba de chegar de uma temporada de seis meses em Paris, onde realizou um curso com Michel Marie, um dos grandes especialistas na obra de Godard.


Fragmentos de Conversas com Jean-Luc Godard (Morceaux de Conversations avec Jean-Luc Godard), Alain Fleischer. França, 2007. Duração: 125 minutos.


Local: Sala de Cinema P.F Gastal, Usina do Gasômetro.

Nouvelle Vague: uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.


O cinema novo francês – nova onda – completa 50 anos. Para comemorar a data a Sala Redenção – Cinema Universitário, em parceria com a Aliança Francesa de Porto Alegre, oferece, com uma curadoria conjunta, durante o mês de julho um ciclo com filmes de diretores que participaram ativamente do movimento nouvelle vague, que deu uma nova face para o cinema mundial. Aliás, este é apenas um dos motivos para dedicar o mês de julho ao cinema francês, pois o impacto da queda da Bastilha, comemorada no último dia 14, ainda é forte no inconsciente coletivo – já que os lemas liberté, égalité, fraternité tornaram-se quase universais, influenciando decisivamente o mundo ocidental.
E hoje (28), às 16 horas, a mostra apresenta A Chinesa, obra-prima do movimento, de JeanLuc Godard. Godard foi um dos maiores nomes da Nouvelle Vague.


La Chinoise
França - 1967
Duração: 96min
Direção: JeanLuc Godard
Entrada Franca

Paris, Verão de 1967. Alguns tentavam aplicar os princípios que romperam com a burguesia da URSS e dos partidos comunistas ocidentais em nome de Mao Tse Tung. Imersos no pensamento de Mao e em literatura comunista, um grupo de estudantes franceses começa a questionar a sua posição no mundo e as possibilidades de o mudar, mesmo que isso signifique considerar o terrorismo como uma via possível. Em A Chinesa, por exemplo, muitos tentam ver no filme um pastiche ou a glorificação dos personagens marxistas-leninistas que se enfurnam durante as férias num apartamento burguês para aprender a fazer a revolução maoísta na França. Caso notório de tentar ressignificar conteúdos ao invés de tentar ver o que lá está: os personagens de A Chinesa, jovens em processo de encontrar seu lugar no mundo, tateiam no escuro à procura de verdades, mas o que Godard filma é justamente a verdade dessa procura. Intrigante obra-prima.Sala da

Local: Sala da Redenção, Cinema Universitário - UFRGS, Osvaldo Aranha.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


um processo revolucionário não é um processo gradual, mas um movimento repetitivo, um movimento de repetir o começo e voltar a repeti-lo muitas vezes..


Kierkegaard







domingo, 19 de julho de 2009


"Quando se sai da prisão depois de lá se ter estado muito tempo, há momentos em que se tem saudades da própria prisão, porque se fica desorientado na liberdade, chamada assim provavelmente porque a esgotante tarefa de ganhar a vida não deixa liberdade nenhuma.”
Vicent Van Gogh, in Cartas a Theo

sexta-feira, 17 de julho de 2009

trechos de Alice...


Um pingo, uma gota de suor, era tudo que Alice não queria daquele lugar, nada parecia suficiente, tudo a incomodava. Talvez fosse a calça jeans, rasgada velha e desbotada. Talvez fosse o som estarrecedor dos altos falantes que gritavam pedaços de Chico Buarque remixado com a modernidade eletrônica. Ela estava completamente entediada, como uma boba, palhaça, esquisita, escorada no canto de um bar qualquer a espera de alguém.
Bar, boteco sei lá, apenas implorava para o garçom um copo de vodka com dois cubos de gelo e uma rodela de limão. Quem sabe assim ressuscitaria as células que pareciam, há meses, estarem mortas.
Mais uma noite, mais uma aparente tentativa frustrada de quem sabe encontrar alguém para conversar, alguém que valesse a noite deixada para trás. A noite de todas as noites, passadas com Lautrec, Smith, Schopenhauer ou qualquer teoria da vez.
Estava sozinha, como sempre, mas ao contrário de outras destrutivas saídas noturnas esperava alguém. Alguém do qual ainda escutava as últimas palavras, com uma exatidão que a tornava impotente para iludir-se com qualquer outro contexto que não fosse de fim trágico. Dois anos se passaram, e ainda lembrava com veemência letra por letra do atroz pé na bunda. Como se fosse ontem, cada palavra perfurava seu cérebro, como uma furadeira.
Agora essa ou esse, um reencontro, definitivamente dispensável. Nada intendível, não agora, achava que Moisés não retornasse tão logo, e que encontraria tempo para recuperar-se, estava indo muito bem, tinha até recuperado seu ímpeto romancista para dar continuidade ao projeto acadêmico de analise de poetas brasileiros.
Com Alice, se tratando de sentimentos é tudo mais complicado. Seu jeito rebelde, bicho do mato não lhe proporcionou grandes encontros, menos ainda grandes romances.
Quando conheceu Moisés surpreendeu-se, por dois desregulados motivos: tinha certeza de que era lésbica e de que jamais amaria um homem a ponto de ensaiar planos. Homem, esse ser tão complexo e imaturo jamais faria a cabeça de Alice.
O barulho exagerado do copo contra o vidro no canto daquele boteco, que não se defina entre o rock e o eletrônico interrompeu suas insistentes e devastadoras lembranças. A sede pelo primeiro gole levou a bebida até á boca com um gesto rápido e rude. Rude como ela.
Alice sabia do peso, da intensidade, e do seu dom para criar castelos de areia e aventuras na selva. Sabia que naquela noite, o erro seria dar espaço as suas incansáveis expectativas de volta. Moisés, como sempre atrasado afligia ainda mais Alice, que aguardava com inquietude e dores estomacais.


Com mãos úmidas, tremulas e o pescoço torcendo-se freneticamente em direção a porta, sentia ânsia. Os incansáveis movimentos em direção a portar começavam a lhe causar certa tontura, e para piorar, além do comum atraso, suas lentes de contato passaram a deslocar-se da posição correta, irritando-a profundamente.
Em rápidos e rudes goles terminou o copo de vodka. Sem menos, apressou-se em pedir a próxima dose no impulso de quem sabe embriagar toda insegurança momentânea. Sentia-se confusa, o que desejaria Moisés? Onde estaria? Por que a volta ao Brasil? Por que a procura por ela? Tantos porquês repetiam-se como se a cólera do passado retornasse anda mais destrutiva.
Foi um término tão tenso e doloroso, as feridas continuavam abertas, e ele sabia do quão difícil foi o passar dos anos, e quão insensível foi sua atitude e mudança brusca de buscas existenciais. Em uma noite lhe propôs casamento, e na outra embarcou para Roma. Só Alice sabe o quanto foi traumático terminar a leitura de As Virgens Suicidas.


No momento, estava repudiando o fato de Moisés cutucar o ferimento justo agora que surgiam as primeiras cascas.
A batida do copo sobre a mesa de vidro interrompeu, mais uma vez, suas saídas mentais. Voltou-se à espera de Moisés em um bar que nada lhe atraia, diziam ser underground, pouco lhe importava. Os sofás vermelhos colocados de forma estratégica nos quatros cantos do porão quadrado formavam uma espécie de abrigo para o os grupos menos amigáveis, observação que lhe causava certo aperto psicológico.
Os sofás vermelhos eram os lugares preferidos de Moisés, foi ali que o conheceu, nas remotas vezes que foi ao bar. Naquela noite chuvosa e quente, sequer ventava. No passado tão presente, três amigos ocupavam o canto mais simpático formado pelos sofás vermelhos. Mais simpático porque acima deles uma televisão exibia imagens inéditas de David Bowie. Alice mal piscava, apenas quando notou a semelhança do triplo, ambos usavam xadrez e gesticulavam sem parar, como se todos discutissem ao mesmo tempo sobre assuntos distintos. As aparentes divergências entre os três a atraíram. E com um discreto brilho nos olhos passou a observar a aparência um tanto excêntrica de um deles.
Com um súbito devaneio, que no dia lhe assuntou profundamente, imaginou a ponta esquisita (como ela) do triangulo sem aquela roupa toda. A camisa xadrez entre aberta, duas vezes o tamanho de seu corpo, uma regata branca por baixo, a calça de veludo boca de sino, e o tênis all star rasgado e sem cor deu-lhe a certeza que tinhas descoberto pela primeira e estranha vez o descontrole da atração pelo gênero oposto.
Outrora, quando os olhares se encontraram tocava Friday in Love, do The Cure, nunca esqueceria. Totalmente fora do contexto, havia se apaixonado, a primeira vista. Talvez tivesse sido o nariz fino e arrebitado de Moisés, talvez a roupa ou os cabelos despenteados. Não soube explicar, até hoje não sabe.
As lembranças a fizeram sorrir, há tempos não sorria, nunca mais havia voltado ao bar, e tudo ainda lhe parecia familiar, até demais. Baixou o copo e pediu a próxima dose, olhou para o relógio, duas horas atrasado, ah Moisés, seus olhos piscaram, a vodka chegou, com uma rapidez que lhe fez desconfiar dos dotes paranormais do garçom, como se soubesse da necessidade da última dose. Retirou da bolsa velha e empoeirada seu antigo e quase inutilizado celular, e digitou as últimas palavras: “Profundo é o poço do passado, desprendo-me definitivamente da corda”. Com uma calma digna de Alice bebeu a última dose com dois cubos de gelo e uma rodela de limão com um prazer nunca sentido antes. Largou o copo, pediu um cigarro ao garçom e observou pela ultima vez os sofás vermelhos. Quando Friday in Love iniciou o próximo som, Alice já não estava presente naquele contexto que julgava tão distante de si.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

sábias palavras...

“Já se disse que as grandes idéias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade sempre ameaçada de que cada e todo homem, sobre a base dos seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos...”

Albert Camus


"Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas, e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando não desenvolveu ainda os recursos com que prender os outros ao papel, quando nada tem da técnica que leva tempo para aprender. Quando em suma você tem apenas emoções para vender. O amador, vendo que o profissional, depois de aprender tudo que podia em matéria de escrever, consegue pegar um assunto trivial , como as reações mais superficiais de três moças comuns, por exemplo, e dar-lhe encanto e graça o amador só consegue realizar sua habilidade de transferir emoções a outra pessoa através do expediente desesperado e radical de arrancar do coração a trágica história de seu primeiro amor, e expô-la nas páginas para que os outros vejam. Este, de qualquer forma, é o preço da admissão."


Scott Fitzgerald

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mark Ryden, grande artista norte-americano

Está tudo planejado:

se amanhã o dia for cinzento,

se houver chuva se houver vento,

ou se eu estiver cansado

dessa antiga melancolia

cinza fria

sobre as coisas

conhecidas pela casa

a mesa posta

e gasta

está tudo planejado

apago as luzes, no escuro

e abro o gás

de-fi-ni-ti-va-men-te

ou então

visto minhas calças vermelhas

e procuro uma festa

onde possa dançar rock

até cair"


quarta-feira, 24 de junho de 2009

O país das maravilhas de Tim...



O cineasta Tim Burton prepara novidades quentíssimas para os amantes da sétima arte. Conhecido pelas temáticas sombrias e pela preferência por Johnny Depp em seus filmes, a nova produção de Burton para as telas é Alice in Wonderland , baseado no clássico Alice no País das Maravilhas escrito por Lewis Carroll. O filme começou a ser rodado em maio de 2009 com data de estréia prevista para março de 2010. O filme se passa 10 anos após a história original, com Alice já com 17 anos. Participam do elenco Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Mia Wasikowska como Alice e Anne Hathaway (aquela mesmo de O Diabo Veste Prada) como a Rainha Branca.
Sinopse: O filme será uma espécie de sequência do original. Alice, agora ao 17 anos, está em uma festa da nobreza em Oxford, onde vive, até que descobre que está prestes a ser pedida em casamento. Desesperada, ela foge seguindo um coelho branco, e vai parar no País das Maravilhas, um local que ela visitou há dez anos mas não se lembrava mais.
As primeiras fotos divulgadas (acima) não deixam dúvidas de que o filme será mais um grande sucesso na carreia do cultuado diretor. Nós aguardamos ansiosamente.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

E para colorir um pouco este blog, nada melhor que as pinceladas de um dos meus pintores impressionistas favoritos:



Quadro "As grandes banhistas" de Pierre - Auguste Renoir, época em que os modelos de beleza apreciados eram bem diferentes dos atuais.

Renoir foi um dos precursores do movimento impressionista, dono de um brilhantismo incomparável – utilizou pincéis e tintas até o último dia de sua vida.

No dia de sua morte pintou um vaso de flores.

IMPRESSIONANTE E IMPRESSIONISTA.
"A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante. As vezes que tentei morrer foi por não poder suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que eu gosto - mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem."

Caio Fernando Abreu, o cara.
O tranqüilo é o mais difícil, somos caóticos por natureza.
Existencialistas a ponto de transformar um simples gesto em uma peça de teatro.
Nem toda palavra faz parte de um contexto especifico.
E nem todos os atos de amor conseguem ser explicáveis.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos.
Cegos que vêem.
Cegos que, vendo, não vêem.”

(SARAMAGO, Ensaio Sobre a Cegueira)

Cultura ... Cinema ... Marlene Dietreich


Para aqueles que não perdem uma oportunidade de babar em frente ao mito Marlene Dietreich, essa é a hora.
A Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro exibe a partir de terça-feira, dia 9 de junho, uma pequena mostra reunindo seis dos sete filmes que o cineasta austríaco Josef von Sternberg realizou na década de 30 com a atriz Marlene Dietrich, O Anjo Azul, Marrocos, O Expresso de Shangai, A Vênus Loira, A Imperatriz Galante e Mulher Satânica. A mostra segue até o dia 14 de junho. S
Seis obras primas da sétima arte dignas de memória, que absolutamente fazem valer cada minuto nas salas da cinemas.

Quarta-feira (10 de junho)
15h – A Imperatriz Galante
17h – O Expresso de Shangai
19h – A Vênus Loira

Quinta-feira (11 de junho)

15h – O Anjo Azul
17h – Marrocos
19h – Mulher Satânica

Sexta-feira (12 de junho)

15h – A Vênus Loira
17h – A Imperatriz Galante
19h – O Expresso de Shangai

Sábado (13 de junho)

15h – O Anjo Azul
17h – Marrocos
19h – Mulher Satânica

Domingo (14 de junho)

15h – A Imperatriz Galante
17h – O Expresso de Shangai
19h – A Vênus Loira

A vida imita a arte?


Foi-se o Bill, de Kill Bill


A morte do ator David Carradine, encontrado enforcado num quarto de hotel em Bancoc, no dia 04.06 segue deixando dúvidas. As suspeitas que antes indicavam suicido, agora apontam para uma seita secreta. A nova teoria publicada pelo tablóide britânico The Sun, afirma que uma seita secreta de lutadores de Kung fu é responsável pela morte do astro de kill Bill. Carradine teria sido morto por tentar se aprofundar na tal seita misteriosa. Alguém dúvida???


terça-feira, 9 de junho de 2009

Jornalismo: "A notícia é vendida como sendo espelho do mundo."

E como abertura deste humilde blog, um papinho bem filosófico , entrevista publicada na Revista Filosofia, sobre julgamento ético nos meios de comunicação, profundo, não? Filosofia e jornalismo abrindo o - estás a pensar.
O entrevistado Clóvis de Barros Filho é jornalista pela Cásper Líbero, formado em Direito pela USP, tendo doutorado em Direito e Comunicação. Ele é autor dos livros: Ética na Comunicação, Comunicação do eu: Ética e solidão e habitus na comunicação, entre outros. Clóvis discute a mídia sob um olhar filosófico.
“Não há nada que se possa falar sobre ética nos meios de comunicação que não tenha seu fundamento último na Filosofia. Neste sentindo, o estudo da Filosofia é fundante da reflexão critica dos meios de comunicação”.
p.s: a entrevista não está na integra, aqui estão trechos e perguntas que achei mais interessante. Como o meu interesse, não é necessariamente o seu, compre a revista e reflita sobre esse processo que envolve as informações que chegam até você. Revista Filosofia, edição 33.

Filosofia - Sua formação é voltada para o Jornalismo e o Direito, duas profissões notadamente práticas. Como veio seu interesse pela reflexão filosófica
Clóvis- (...) O conhecimento jurídico e conhecimento jornalístico me eram apresentados muitas vezes como indiscutíveis. Sobre o jornalismo, por exemplo, diziam que era divido em três tipos: informativo, opinativo e interpretativo. E o que diferenciava o primeiro do segundo é que no informativo não havia um juízo de valor. Em outras palavras, a notícia seria um espelho, uma coincidência entre o fato e a notícia. Isso me intrigava já na graduação, porque eu me perguntava: mas será que a própria definição da pauta já não implica na valorização? Definir os fatos que merecem ser notícia e fatos que não merecem ser notícias não é uma forma de valoração?” A notícia é vendida como sendo espelho do mundo: “aconteceu, virou manchete”, “o que pinta de novo, pinta na tela da Globo”, “mostrando a vida como ela é.” São slogans publicitários, é verdade, mas vendem o serviço jornalístico como sendo uma codificação fiel do mundo. Sempre me perguntei se o jornalismo não seria uma reconstrução e, como toda reconstrução, obedeceria a certos interesses. Se o jornalista mostra o mundo como ele é, ele só pode ser de um jeito, de tal maneira que ele jamais será responsável pelo que faz. Estaria a mercê de uma regra que o constrange, que é a regra da correspondência radical entre o mundo e a notícia. Então, não podendo fazer diferente, ele é como vento. O vento venta, ele não pode deliberar ventar no sentido contrário. O jornalista só passaria a ter responsabilidade se ele pudesse fazer outro jornal. Ele não faz. O jornalista só poderia ter responsabilidade se o jornal fosse um mundo possível em detrimento de outros mundos possíveis, descartados por ele, jornalista. Ele só poderia ser responsável se ele decidisse alguma coisa. Resumindo, as minhas perguntas, de certa maneira, transcendiam o que se pretendia do curso de graduação. Eu olhava para o curso de fora, me preocupava muito menos com a formação técnica e muito mais com os fundamentos.

Filosofia – Você tocou no tema de audiência. Fala-se em sensacionalismo da mídia com relação a crise econômica mundial – a avalanche de notícias catastróficas estaria espalhando e agravando a crise. Ética e necessidade de audiência se esbarram em algum ponto? Por necessidade de audiência se abandonaria a ética?
Clóvis- Eu vejo que o respeito às demandas sociais por notícia é um dado do fazer jornalístico, um dado que se impõe. A menos que cogitemos a estatização da mídia, a mídia no setor privado será fabricante de um produto à venda. E, por isso, precisa de compradores. E os compradores são o que são. Não há de se esperar da mídia que forma novos consumidores dela próprio. O que há de se esperar da mídia é que, vendendo bem, procure manter os consumidores onde estão. Portanto, se nós pretendemos uma nova mídia, precisamos pensar nas condições materiais de uma nova demanda. E as condições materiais de uma nova demanda passam pela formação de um receptor mais critico dos meios de comunicação. Esta formação, no meu entender, não pode ser dada pelos próprios meios de comunicação, porque ela seria cínica. Da mesma maneira em que somos formados em Matemática, em Literatura, em História, deveríamos receber formação, durante o ensino fundamental, sobre mídia. A mídia deveria ser trazida para a sala de aula como objeto critico de estudo – de sua produção e de sua recepção.
Filosofia- O pensamento de filósofos de outras épocas a respeito da Ética pode ser aplicado à nossa realidade, ao nosso contexto? São princípios atemporais?
Clóvis- os conceitos nunca são atemporais, porque eles estão no tempo. E foram propostos por pessoas que estiveram no tempo. São frutos da mais estreita iminência do mundo da vida. Porém, esses conceitos, que são temporais, são férteis e úteis para discussão do mundo contemporâneo. Quando, no intelectualismo socrático, Sócrates nos propõem que toda vida bem vivida deve decorrer de uma reflexão racional sobre ela, em que tenhamos a liberdade por definir a nós mesmos, essa reflexão é ainda extremamente útil. Se considerarmos que muitos jornalistas se apresentam como escravos dos fatos, fica evidente que, se você é escravo dos fatos, você não tem as condições socráticas de reflexão sobre o bom jornalismo. Quem é escravo não tem liberdade para pensar, não pode definir a própria vida, isto é, definir a própria atividade profissional (...). Em outras palavras, já que eu não posso julgar a conduta por ela mesma, em grande medida porque o gabarito platônico do mundo das idéias não está ao acesso de todos, estão eu admito que a boa conduta seja aquela que enseja efeitos bons. Essa perspectiva conseqüencialista da moral tem enorme interesse para quem estuda os meios de comunicação porque, no final das contas, eu acabo tende de investigar qual o efeito dos códigos nos achismos dos especialistas midiáticos. E os efeitos cientificamente demonstráveis da mídia com a sociedade, tipo agenda setting, espiral do silêncio. Muito interessante perceber que os efeitos efetivamente produzidos pelos meios de comunicação fazem parte, ou podem fazer parte, de uma reflexão moral de conscientização. E isso é um aporte que nos traz a filosófica conseqüencialista – que tem seu início com o egoísmo moral de Maquiavel, mas que tem o utilitarismo moras dos ingleses dos séculos XVIII e XIX, que tem o pragmatismo como representante importante(...).
Filosofia – O senhor tocou no assunto da agenda setting ( a mídia que decide o que e de quem falar) e da espiral do silêncio (tese que a manifestação contrária se manifesta publicamente, mas tende a silenciar-se de forma gradativa), que eram conceitos mais ligados ao mundo dominado pelos meios de comunicação de massa. Com a difusão da internet, que dá acesso a fontes de informação mais diversificada, muda alguma coisa nestes conceitos? Eles deixam de vigorar por que o cenário mudou?

Clóvis- Tudo muda e a internet é uma forma de manifestação dos agentes sociais que modifica a relação da mídia tradicional com a sociedade. Apesar dessas novas formas de manifestação, aquilo que a agenda setting se dispõem a comprova, isto é, os temais mais presentes na mídia são as temas mais discutidos pela sociedade, permanece inatacável. Digamos que os meios de comunicação se aproveitam daquilo que é ventilado em um blog – por exemplo, alguma ocorrência ilícita no mundo político – e apresentem este fato como noticia. Esta noticia será discutida pela sociedade, inclusive nas formas de manifestações on-line . Perceba, não é como era antes, mas a idéia de que os meios de comunicação de massa ainda controlam uma prerrogativa importante, que é a definição de um mínimo denominador comum de temas discutíveis de qualquer um, permanece uma idéia muito interessante, muito fértil. Não sou um fervoroso defensor da idéia, mas considero-a, com todas as demonstrações científicas de que ela foi objeto. Por quê? Porque de fato poderíamos dizer, como diz Niklas Luhmann, a mídia é um fator de redução de complexidade social. Em outras palavras, se não houvesse mídia tradicional, provavelmente não teríamos um cardápio de temas discutíveis por qualquer um, estaríamos muito mais sujeitos a nichos temáticos, ou do mundo mais estritamente privado ou profissional.
Fonte: Revista Filosofia – ciência&vida, número 33.